domingo, 12 de fevereiro de 2017

História da Educação Moderna


     Um livro riquíssimo, que vale a pena estudar, sob o título, História da Educação Moderna, de Frederick Eby (1874-1968), traduzido por Maria Angela Vinagre de Almeida, Nelly Aleotti Maia e Malvina Cohen Zaide, professores da Faculdade de Educação da UFRJ, publicado pela Editora Globo, em 1976,  em convênio com o Instituto Nacional do Livro - MEC, trata da teoria, organização e práticas educacionais. 
     "Do alvorecer do Humanismo aos currículos escolares atuais, do movimento científico do século XVI à psicologia genética de Stanley Hall, da Reforma protestante à democratização do ensino, da revolução industrial e consequentes reivindicações à escola pública para todos: os grandes progressos humanos examinados em seus processos de interação social e sua repercussão pedagógica - eis a obra de Frederick Eby, descortinando para o leitor o panorama da educação moderna. Poderíamos dizer, sem exagero, que é uma história da cultura, tal o âmbito dos problemas tratados e o nível em que são abordados.
     Ao tratar da evolução da educação moderna o autor não se restringe ao desenvolvimento histórico linear dos problemas, ao contrário, entrelaça os diversos movimentos, autores e doutrinas, avaliando-os filosoficamente. Outro ponto digno de atenção é que poucos livros de História da Educação se estendem até os dias atuais - a dificuldade de analisar a própria época tem intimidado os autores. O Professor Eby, porém, ousou penetrar no conjunto de movimentos que surgiram no início do século XX para com eles familiarizar os estudantes. Esse livro, apresenta-se, de certa forma, como um apelo no sentido da resolução de problemas cruciais da nossa época: a segregação racial, a educação religiosa, a educação sexual e outros. A crise atual tem raízes históricas; embora sua busca seja proveitosa e interessante e a solução almejada só poderá advir com o aperfeiçoamento da conduta humana, ou seja, uma melhor educação axiológica da educação. O grande desvelo posto na seleção dos dados, o número de autores a que se recorreu, as citações que o documentam, tornam este livro uma obra digna de confiança, recomendando-se seu resgate e sua leitura, ao mesmo tempo, a alunos e professores de História e Filosofia da Educação. Nenhum estudante de Educação pode, realmente, prescindir da análise histórica que esclarece o fato presente pelo conhecimento do passado. A posição do Autor não chega a ser revolucionária, mesmo assim ele se destaca por colocar o fato educacional exatamente no âmago de todas as grandes modificações que ocorreram no passado e caracterizaram épocas, reconhecendo assim o verdadeiro papel da educação na evolução social do homem. Baseia-se, implicitamente, no fato de que a educação é afetada pelas crenças, costumes e instituições dominantes numa sociedade e de que, por sua vez, afeta esta mesma cultura, transformando-a, constituindo, assim, uma força propulsora do progresso.", pontua a resenha. 
     De fato este livro é dos mais belos e profundos entre quantos já se tenham escrito sobre ensino e a sua arte. Todos os mestres (e, principalmente, os de ensino secundário e superior), bem como todos os planejadores educacionais, com estas páginas se deliciarão. É de supor que não haverá um só que, neste ou naquele trecho, não se detenha para recordar fatos, situações e pessoas ou, ao contato do texto, não passe a meditar sobre o valor real e o alcance de suas aulas, de seu trabalho ou ainda que, assim reencontrando em seu íntimo o que parecia perdido, não aflore a convicção da grandeza humilde de seu próprio trabalho e anime-se a cada vez mais com essa tarefa.

sábado, 21 de janeiro de 2017

John Locke e a Educação

     Em História da Educação Moderna, O Professor Frederick Ebay interpreta, dentre muitos outros educadores, John Locke. Em apertada síntese destacamos fragmentos que seguem: "Tão extraordinária foi esta época da História chamada "O Renascimento", que estudante algum pode compreender o aparecimento da civilização moderna, sem reviver suas dramáticas cenas e acontecimentos. [...] Em nenhuma época da história do mundo ocidental a teoria e a prática educacionais sofreram maior alteração que no século XVIII. [...] A última parte do século XVII e a primeira parte do século XVIII marcaram o início da transição para a era da sociedade e educação atuais. [...] Dos líderes do pensamento dessa era, John Locke foi, de todas as maneiras, o mais importante. [...] Na estruturação de seus pontos de vista sobre educação, Locke foi grandemente influenciado por Montaigne: em menor escala por escritores antigos, mas, acima de tudo, pelos costumes das famílias inglesas da classe superior. [...] Locke tinha uma arraigada desconfiança das palavras. Insistia em que o pensamento fosse feito sem palavras, tanto quanto possível. [...] Locke salientou que as palavras são símbolos arbitrariamente escolhidos. Não possuem quaisquer conexões naturais ou misteriosas com as coisas que designam. Não exprimem realidade. 'O que nós chamamos uma rosa, cheiraria tão bem como outro qualquer nome;' do contrário, seria "rosa" em todas as línguas. Como objetivo da educação, selecionou essas quatro coisas essenciais: virtude, sabedoria, educação e conhecimento, de preferência à eloquência, virtude e piedade, o objetivo dos humanistas. Mais ainda, essas qualidades, enunciou-as em ordem de importância. "Eu coloco a virtude", declarou, "como o primeiro e o mais necessário daqueles dons que pertencem a um homem ou um gentil-homem; como requisito indispensável para torná-lo valorizado e amado pelos demais, aceitável e si mesmo." Virtude, pelo que designava bom caráter, depende inteiramente de formação religiosa adequada. Compreende especialmente reverência a Deus, amor à verdade e boa vontade em relação aos outros. Sabedoria, no pensamento de Locke, é prudência, julgamento sólido e previsão nas questões da vida, tais como administração dos próprios bens e desempenho do serviço público para a prosperidade da comunidade. Boa educação, ou polidez, de acordo com a tradição inglesa, foi elevada por Locke a uma posição de maior importância na formação. Tem como sua própria fonte de origem adequada consideração por si e respeito pelos outros; sua regra é: "Não pensar mesquinhamente a respeito de nós mesmos, e não pensar mesquinhamente a respeito dos outros." Locke situou o conhecimento no fim porque, no seu entender, era de menor importância. "Deve ser obtido, mas, em segundo lugar, e subserviente apenas às qualidades maiores." Apesar de Locke reduzir ao mínimo a importância do conhecimento em comparação aos demais objetivos, não o fez com desrespeito pela inteligência humana ou pela vida racional. A razão é a mais alta faculdade do homem, mas é uma faculdade cujas funções são mais valiosas em questões práticas e éticas do que em terrenos puramente especulativos ou no armazenamento do saber. Não o erudito, mas o prático "gentil-homem cujo destino adequado é o serviço de seu país", deve ser o produto da educação que Locke propunha. Ele tinha pouco respeito pelo erudito como tal. Sobre este afirmou: "Eu penso que vós julgareis muito tolo um indivíduo que não valorizasse um homem virtuoso ou sábio infinitamente mais do que um grande erudito." Escreveu: "O grande trabalho de um governante é moldar a carruagem e formar a mente; implantar em seu aluno bons hábitos e os princípios da virtude e sabedoria, dar-lhe, aos poucos, uma visão da humanidade, e formá-lo no amor e imitação do que é excelente e digno de louvor; e, na busca disto, dar-lhe vigor, atividade e diligência." [...] A utilidade é o princípio orientador na seleção do currículo. Cada estudo e suas minúcias devem encontrar justificação na contribuição que dão à vida. No entanto o fator determinante não é a vida atual da criança, e sim, sua vida futura como homem. [...] Preocupar-se-á com "conhecimento moral e político e, deste modo, os estudos que pertencem mais imediatamente a seu destino são aqueles que tratam de virtudes e vícios, da sociedade civil e das artes de governo, e incluirão, também Direito e História. [...] Apesar de Locke ter adotado este princípio de utilidade, seria precipitado concluir que o autor encherá a memória da criança com conhecimento útil. A atitude certa do aluno com relação ao conhecimento é muito mais importante do que a posse de informações. A tarefa do tutor é enisinar-lhe não tanto tudo o que se pode saber, quanto desenvolver nele um amor e uma estima pelo conhecimento, e colocá-lo no caminho de conhecer-se a si próprio e aperfeiçoar-se quando tiver capacidade para isso.". 
     A relevância desses aspectos exploratórios vem do momento em que estamos atravessando em que a sociedade está em busca de uma reforma no sistema educacional. Neste momento, então, nada melhor do que rever a história daquilo que se pretende alterar. É na história relativa a esse domínio que a sociedade irá buscar elementos para uma tomada de decisão com maior probabilidade de acerto. Charles Fadel, Maya Bialik e Berninie Triling, coordenam uma pesquisa intitulada "Educação em Quatro Dimenções", voltada ao estudante do século XXI, ou seja, as competências que os estudantes precisam ter para atingir o sucesso. Esse trabalho tem divulgação, aqui no Brasil, pelo Instituto Península e Instituto Ayrton Senna, vale a pena conferir.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Análise dos Prazeres


     Não é possível nem aconselhável dizer tudo, ainda que se desejasse.
     1ª) "Amor é fogo que arde sem se ver,
            é ferida que dói e não se sente,
            é um contentamento descontente,
            é dor que desatina sem doer;
é um não querer mais que bem querer,
é solitário andar por entre a gente,
é nunca contentar-se de contente,
é cuidar que ganha em se perder;
            é querer estar preso por vontade,
            é servir a quem vence o vendedor,
            é ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?" (Luiz Vaz de Camões - Sonetos)

     2ª) "É preciso considerar que, entre os desejos, alguns são naturais, outros vazios, que, entre os desejos naturais, uns são necessários, outros, simplesmente naturais; dentre os que são necessários, uns são necessários à felicidade, outros à própria vida. É a justa compreensão dessas coisas que permite referir toda escolha e toda recusa à saúde do corpo e à ataraxia (imperturbabilidade) da alma, já que nisso está a finalidade da vida feliz. Pois agimos sempre para evitar a dor e o medo. Quando o conseguimos, toda a turbulência da alma se dissipa, já que o vivente não mais tem de perambular como se buscasse algo ausente nem procurar alguma coisa para satisfazer o bem do corpo e o bem da alma. Só precisamos do prazer quando sofremos por sua falta; mas quando não sofremos, não temos nenhuma necessidade de prazer. Por isso dizemos que o prazer é o começo e o fim da vida feliz. É ele que reconhecemos como o bem primitivo e natural e é a partir dele que que se determinam toda escolha e toda recusa e é a ele que retornamos sempre, medindo todos os bens pelo cânon do sentimento. Exatamente porque o prazer é o bem primitivo e natural, não escolhemos todo e qualquer prazer; podemos mesmo deixar de lado muitos prazeres quando é maior o incômodo que os segue; e consideramos que muitas dores são melhores do que os prazeres quando conseguimos após suportá-las, um prazer ainda maior. Todo prazer é portanto bom por seu vínculo conosco é congênito; no entanto, não convém buscar todo e qualquer prazer. Do mesmo modo, toda dor é um mal e no entanto nem todas são de natureza a nos fazer fugir. É por comparação e pelo exame dos benefícios e dos inconvenientes que devemos avaliar essas coisas. Há casos, com efeito, em que o bem pode ser para nós um mal e, reciprocamente, em mal pode se tornar um bem. Julgamos também que a independência é um grande bem, não porque devamos sempre nos contentar com pouca coisa, mas a fim de que, se nos faltar a abundância, possamos satisfazer-nos com pouco, verdadeiramente convencidos de que os que encontram na abundância os mais doces prazeres são os que dela menos precisam e que tudo que é natural é fácil de obter, mas não o supérfluo. Sabores simples nos trazem prazer igual ao de uma suntuosa refeição, uma vez saciada a dor que a carência engendra; o pão e a água produzem o mais alto prazer quando aquele que precisa deles os leva aos lábios. Acostumar-se com a simplicidade e frugalidade assegura plena saúde e deixa o homem disposto para os esforços úteis de sua vida e quando, uma vez ou outra, desfrutar do luxo, será da melhor maneira, sem temor dos dias difíceis." (Epicuro - Carta a Menequeu). 
     Segundo Epicuro, a sabedoria consiste em desenvolver e desencantar as forças naturais, para viver em serena harmonia com a ordem cósmica. Não há segredo no cosmos se soubermos nos servir das luzes da inteligência, para ir ao fundo daquilo que as sensações nos mostram. É bem esse o objetivo da ética epicúria: ensinar-nos a cuidar de nossa vida como de um belo jardim. Justamente por constituir o bem maior de que dispomos, a vida merece que desfrutemos das satisfações fundamentais: a paz de espírito, a amizade, o gosto dos prazeres verdadeiros, pontua João Quartim de Moraes.

sábado, 7 de janeiro de 2017

A Escravidão, a Dor e o Prazer

     Epiruco (341-270 a.C), escrevera: "Ninguém, quando jovem, deixe de filosofar nem, quando velho, se canse filosofando. Pois ninguém é jovem demais nem demasiado velho, para fazer algo em favor de sua saúde espiritual. Quem julgasse ser muito cedo ou minimamente tarde para dedicar-se à filosofia, seria semelhante àquele que afirma que a hora exata de sua felicidade ainda não chegou ou que já se escoou. Portanto, a filosofia cabe tanto ao jovem quando ao velho" (Carta a Meneceu). E que se deve buscar o prazer e fugir da dor. Ao erigir o prazer em bem supremo, ele não estava sustentando nem que o bem é aquilo que parece bom a cada qual, nem que a felicidade consiste em buscar todo e qualquer prazer. Mesmo porque a dor, o medo e o sofrimento estão sempre à espreita: a missão da ética é ensinar a evitá-los ou a suportá-los. Quanto a sentir prazer, todo mundo já nasce sabendo. O que podemos e devemos aprender é escolher os prazeres mais propícios a vida feliz, que nos torna 'como em deus entre os homens', escrevera. Santo Agostinho (354-430) escrevera que quando a vontade se submete à razão teremos o bem e quando a vontade fica acima da razão teremos o mal. Uma das finalidades básicas da educação é libertar a mente humana dos seus vários grilhões. Se a liberdade é relativamente esclarecida e responsável, quanto mais, melhor. O maior interesse do professor é a libertação e cultivo da variedade em todas as pessoas normais. Até mais ou menos recentemente, toda a estrutura da sociedade civilizada apoiava-se na instituição da escravidão humana. O professor liberta o estudante da escravidão cultural, da ignorância sobre o mundo material, da ignorância social, da falta de conhecimento e lhe dá um ritmo de crescimento que o torna capaz de absorver e aumentar seu conhecimento, de organizar e produzir significativamente. As pessoas são escravizadas de tantas maneiras diferentes. A escravidão comporta mais de um tipo. Um tipo sensível é a escravidão moral. Esse tipo propicia o preconceito, a ignorância, o egoísmo e a confusão. Mahatma Gandhi (1869-1948) escrevera algo que serve como exemplo de escravidão moral: "Por Que As Pessoas Gritam?
Um dia, um pensador indiano fez a seguinte pergunta a seus discípulos:
- Por que as pessoas gritam quando estão aborrecidas?
- Gritamos porque perdemos a calma, disse um deles.
- Mas, por que gritar quando a outra pessoa está ao seu lado? – Questionou novamente o pensador.
- Bem, gritamos porque desejamos que a outra pessoa nos ouça, retrucou outro discípulo.
E o mestre volta a perguntar:
- Então não é possível falar-lhe em voz baixa?
Várias outras respostas surgiram, mas nenhuma convenceu o pensador. Então ele esclareceu:
- Vocês sabem porque se grita com uma pessoa quando se está aborrecida? O fato é que, quando duas pessoas estão aborrecidas, seus corações se afastam muito.
Para cobrir esta distância precisam gritar para poderem escutar-se mutuamente.
Quanto mais aborrecidas estiverem, mais forte terão que gritar para ouvir um ao outro, através da grande distância.
Por outro lado, o que sucede quando duas pessoas estão enamoradas?
Elas não gritam. Falam suavemente.
E por quê?
Porque seus corações estão muito perto.
A distância entre elas é pequena.
Às vezes estão tão próximos seus corações, que nem falam, somente sussurram.
E quando o amor é mais intenso, não necessitam sequer sussurrar, apenas se olham, e basta.
Seus corações se entendem.
É isso que acontece quando duas pessoas que se amam estão próximas.
Por fim, o pensador conclui, dizendo:
“Quando vocês discutirem, não deixem que seus corações se afastem, não digam palavras que os distanciem mais, pois chegará um dia em que a distância será tanta que não mais encontrarão o caminho de volta.". Segundo Earl V. Pullias, "Quase tudo na vida moderna é confuso e apinhado. Parecemos literalmente hipnotizados pela necessidade de fazer mais, aprender mais, obter mais, até que o mais se transforma numa obsessão. Esse impulso para o mais penetra e influencia todas as fases da vida, incluindo a educação.". Daí a indagação, segundo ele: "Qual é o conhecimento digno de ser sabido? [...] Talvez estejamos já tão adiantados na estrada da aglomeração que nem sequer podemos parar e fazer estas perguntas, sem falar da descoberta de respostas inteligentes e objetivas.", sentencia ele. Se é verdade que alguma coisa, no homem, o atrai para os maiores riscos da vida, neste sentido, é lícito finalizar dizendo que o professor é um guia na jornada do aprendizado, com todos os desafios que isso possa representar e a mais sutil, difícil e importante de todas as tarefas do professor como guia talvez seja a de dar vida e significado à jornada do aprendizado, considerando que toda jornada tem um propósito ou destino, o qual depende também e muito do aluno.

domingo, 25 de dezembro de 2016

A Religião e o autoconhecimento


     1º) "Em épocas difíceis, a religião é sempre o último refúgio do povo. Regra geral, todos se lembram de Deus quando os últimos recursos já foram tentados e falharam." (Ivo Storniolo);
     2º) "Deus é uma esfera infinita cujo centro está em toda parte e cujo limite não está em lugar nenhum." (Hermes Trismegisto);
     3º) "O que for a profundeza do teu ser, assim será teu desejo. O que for o teu desejo, assim será tua vontade. O que for a tua vontade, assim serão os teus atos. O que forem teus atos, assim será teu destino." (Brihadaranyaka Upanishad IV, 4.5);
     4º) "Um fluxo suave em vez de velocidade." (Kazuaki Tanahshi);
     5º) "Se [um pensamento] me vem três vezes à cabeça, eu faço o que ele quer. As intuições são insistentes e persistentes. Se a questão for importante, você não a esquecerá. Ela continuará a voltar. Ela o importunará. (...) Muitos de meus alunos são corretores da bolsa. Em seu ramo de negócios eles têm que agir rápido. Mas mesmo sob intensa pressão, eles conseguem usar a Lei de Três. Em poucos momentos, eles podem deixar uma ideia ir embora, e esperar. Se ela voltar imediatamente, eles a aprenderam a sentir a diferença entre uma reação de pânico e uma intuição. Suas Intuições geralmente acontecem logo antes de uma mudança no mercado. O pânico normalmente ocorre depois que a mudança já aconteceu." (Nancy Rosanoff).
     De todo o relacionado acima, é possível fazer algumas derivações, dentre elas uma. Que o conhecimento interior (autoconhecimento) geralmente desabrocha com o tempo e sutilmente influencia nosso caminho. E para que isso ocorra é útil que se exercite a lei da gratidão e do silêncio. Nós só nos tornamos criativos no silêncio. O tumulto é contrário a isso tudo. Da mesma forma, é útil, também, o exercício de cultivar uma imaginação positiva, que capacite a obter na vida aqueles triunfos de ordem espiritual e material que antes lhes pareciam impossíveis de alcançar. E com isso ser (não é ter é ser) a própria fé de que o universo trabalho em nosso favor.
         

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

A CALMA, O SILÊNCIO E A VERDADE




1   “Calma! É aos poucos que a vida vai dando certo.” (Revista Circuito);
     “[...] Seja o vosso falar: Sim, sim; Não, não [...]” (Mateus 5:33-37);
      “Apesar de todas as falsidades, fadigas e desencantos, o mundo ainda é bonito.” (Desiderata).
     “Se você está no ponto de estourar mentalmente, silencie alguns instantes para pensar. Se o motivo é moléstia no próprio corpo, a intranquilidade traz o pior. Se a razão é enfermidade em pessoa querida, o seu desajuste é fator agravante. Se você sofreu prejuízos materiais, a reclamação é bomba atrasada, lançando caso novo. Se perdeu alguma afeição, a queixa tornará você uma pessoa menos simpática, junto de outros amigos. Se deixou alguma oportunidade valiosa para trás, a inquietação é desperdício de tempo. Se contrariedades aparecem, o ato de esbravejar afastará de você o concurso espontâneo. Se você praticou um erro, o desespero é porta aberta a faltas maiores. Se você não atingiu o que desejava, a impaciência fará mais larga a distância entre você e o objetivo a alcançar. Seja qual for a dificuldade, conserve a calma, trabalhando, porque em todo o problema, a serenidade é o teto da alma, pedindo o serviço por solução.” (Sheik Omar).
Um possível resumo disso tudo está em nada do que foi construído entre os seres o foi sem intranquilidade, com barulho e falsidade. A falsidade é mãe da esperteza. Ambas são armadilhas terríveis. O esperto supõe, equivocamente, que os demais nada percebem. Ele subestima a capacidade espiritual dos demais e daí vive na falsidade imaginando estar se dando bem. Ele não medita sobre quem é, quem é o outro e como vê o outro. Daí o autoconhecimento e heteroconhecimento estão ausentes. O que lhe faz viver na ilusão. E vivendo na ilusão, nada do que planeja poderá atingir meta alguma, simplesmente porque vive na ilusão. Tudo que é grandioso é silencioso também. Sol não faz barulho; já um grilo faz barulho ensurdecedor. Por fim, por viver na ilusão, não medida também sobre as advertências de Santo Agostinho que teria dito que quando a vontade fica acima da razão, produz-se o mal e quando a vontade se submete à razão produz-se o bem. De todo o dito, importante ser prudente e fazer de tudo para ser feliz. Considerando que a felicidade é algo interno.

domingo, 4 de dezembro de 2016

O Ser mais excelente


     João Amós Coménio (1592-1670) escrevera um "tratado da arte universal de ensinar tudo a todos", ou seja, "Didáctica Magna", ao qual designou de a arte de ensinar. Também dirigiu um veemente apelo à paz e à tolerância, garantidas por meio de instituições internacionais, pelo qual é justamente considerado precursor do atual movimento ecumênico, da Sociedade das Nações, da ONU, da UNESCO e do Bureau International d'Education. Efetivamente, preconizara uma reforma universal da sociedade humana através dos seguintes meios: I - unificação do saber e sua propagação, graças a um sistema escolar aperfeiçoado, sob a direção de uma academia internacional; 2 - coordenação política, sob a direção de instituições internacionais tendentes a assegurar a manutenção da paz; 3 - reconciliação das Igrejas, sob a égide de um cristianismo tolerante. Dedicou uma página (O homem é a mais alta, a mais absoluta e a mais excelente das criaturas), onde narrara: "1. Quando Pítaco pronunciou o seu "conhece-te a ti mesmo", os sábios acolheram esta máxima com tão grandes aplausos que, para a recomendarem ao povo, afirmaram que ela viera do céu, e tiveram o cuidado de a fazer inscrever, em letras de ouro, no templo de Apolo, em Delfos, onde o povo afluía em grande número. Este foi um ato de sabedoria e de piedade; aquela foi, de fato, uma ficção, mas absolutamente conforme à verdade, como para nós é evidente mais que para eles. 2 - Efetivamente, a voz que, vindo do céu, ressoa nas Sagradas Escrituras, que outra coisa quer dizer senão: "ó homem, que tu me conheças, que eu te conheças?". Eu, fonte de eternidade, de sabedoria e de beatitude; tu, criatura, imagem e delícia minha. 3 - Com efeito, destinei-te a compartilhar comigo da eternidade; para uso, preparei o céu, a terra e tudo o que neles está contido; só em ti juntei, ao mesmo tempo, todas as prerrogativas, das quais as outras criaturas apenas têm uma: o ser, a vida, os sentidos e a razão. Fiz-te soberano das obras das minhas mãos, e coloquei tudo a teus pés, as ovelhas, os bois e os outros animais da terra, as aves do céu e os peixes do mar, e desta maneira coroei-te de gloria e de honra. A ti, finalmente, para que nada te faltasse, dei-me eu próprio, mediante a união hipostática, ligando para sempre a minha natureza com a tua, sorte que não coube a nenhuma das outras criaturas visíveis e invisíveis. Com efeito, qual das outras criaturas, no céu ou na terra, se pode gloriar de que Deus se revelasse na sua própria carne e apresentado pelos anjos?, ou seja, não apenas para que vejam e se admirem a ver quem desejavam ver, mas ainda para que adorem a Deus que se revelou de carne, ou seja, Filho de Deus e do homem. Deves, portanto, compreender que és o protótipo, o admirável compêndio das minhas obras, o representante de Deus no meio delas, a coroa da minha glória. 4 - Oxalá todas estas verdades sejam esculpidas, não nas portas dos templos, não nos frontispícios dos livros, não enfim, nas línguas, nos ouvidos e nos olhos de todos os homens, mas nos seus corações. Deve procurar-se, na verdade, que todos aqueles a quem cabe a missão de formar homens façam com que todos vivam conscientes desta dignidade e excelência, e empreguem todos os meios para atingir o objetivo desta sublimidade.".
     Algum tempo depois, Charles Spencer Chaplin (1889-1977), mais conhecido como Charlie Chaplin, retomara o tema em "O Último Discurso, de O Grande Ditador", em que escrevera:
"Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar - se possível - judeus, o gentio ... negros ... brancos.
Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo - não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar ou desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover todas as nossas necessidades.
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma do homem ... levantou no mundo as muralhas do ódio ... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas duas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
A aviação e o rádio aproximaram-se muito mais. A próxima natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem ... um apelo à fraternidade universal ... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhões de pessoas pelo mundo afora ... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas ... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: "Não desespereis!" A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia ... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem os homens, a liberdade nunca perecerá.
Soldados! Não vos entregueis a esses brutais ... que vos desprezam ... que vos escravizam ... que arregimentam as vossas vidas ... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquina!
Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar ... os que não se fazem amar e os inumanos.
Soldados! Não batalheis pela escravidão! lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas é escrito que o Reino de Deus está dentro do homem - não de um só homem ou um grupo de homens, mas dos homens todos! Estás em vós! Vós, o povo, tendes o poder - o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela ... de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto - em nome da democracia - usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo ... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.
É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos.
Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontres, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo - um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergues os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos."
     A dignidade do homem, na visão desses dois grandes, tinha por finalidade primária valorizar o ser humano. Daí decorre uma pergunta: é oportuno, hoje, dissertar acerca da nobreza ímpar do homem? Creio que o leitor já entendeu a mensagem. Ainda é, de todo conveniente, insistir no apreço at tema sobre a dignidade do ser humano, sobre aquilo sobre o qual é dissertado nas Faculdades de Direito. Então, chegou a hora de retomar, proclamar, alto e bom som, ainda que correndo o risco de reproduzir pregação no deserto, que o homem é dotado de valor inestimável. Ele não pode ser retratado em símbolo de ninharia material. Não ouro nem prata suficientes para expressar o valor do homem, nas palavras de Luiz Feracine.